Base para preservação da fauna e flora do Rio Doce será monitoramento

Rede Rio Doce Mar é parceira no monitoramento da biodiversidade marinha, realizado de Guarapari (ES) a Porto Seguro (BA) (Foto: Nitro Imagens/Divulgação)

A cada seis meses, um grupo de aproximadamente 80 pessoas passa entre 30 e 60 dias percorrendo trilhas na vegetação às margens do rio Doce. Nesse caminho, eles coletaram até agora mais de 100 mil amostras ou registros de animais e plantas da Mata Atlântica. Esse é um braço do trabalho de monitoramento da biodiversidade após o desastre de Mariana, na região Central, em novembro de 2015.

Os 40 milhões de rejeitos de minério de ferro que desceram da barragem de Fundão provocaram um grande impacto na bacia hidrográfica, afetando também a sua biodiversidade. Porém, para fazer o planejamento de ações de reparação, primeiro é preciso mensurar qual foi esse impacto, sua abrangência e seus efeitos.

E é isso que está sendo feito por mais de 30 universidades e instituições que atuam em parceria com a Fundação Renova, entidade responsável pela reparação e compensação dos danos do desastre.

Além do trabalho de monitoramento da fauna e flora terrestres, também estão sendo realizados estudos no comportamento da fauna aquática da bacia do rio Doce e marinha, em uma extensão que vai além da foz e abrange uma área de Guarapari, no Espírito Santo, a Abrolhos, na Bahia.

O biólogo e analista ambiental da empresa Bicho do Mato Meio Ambiente, Diogo Loretto, é o coordenador do trabalho de monitoramento da biodiversidade terrestre. Ele explica que o modelo de estudo que esta sendo utilizado ao longo da bacia do Rio Doce é chamado de Rapeld. Ele foi desenvolvido para permitir uma análise seguindo uma metodologia rigorosa que permita a comparação de dois ambientes distintos.

“O que o método Rapeld faz é seguir um padrão rigoroso de análise. Se em determinado local utilizamos uma lente específica com um determinado modelo de microscópio para fazer a análise, em outro local teremos que utilizar os mesmos instrumentos para fazer os estudos. Mesmo analisando áreas diferentes, é possível fazer uma comparação para fins de pesquisa com esses dados”, explica.

A metodologia é fruto de práticas de monitoramento que começaram a ser desenvolvidas há 40 anos e que hoje chegaram nessa fórmula que permite fazer uma análise do comportamento da biodiversidade em um período curto, mas também de um longo tempo. Cada um dos 14 grupos de categoria de diversidade da fauna e a flora conta com uma metodologia específica que leva em consideração a complexidade de cada um.

Essa é a primeira vez que o Rapeld está sendo aplicado em um bioma de Mata Atlântica nessa dimensão. Para coleta dos dados, foram percorridas 109 trilhas desde Mariana até Linhares, no Espírito Santo. Cada trilha tem uma extensão que varia de 1 a 5 km. Desse caminho, saem trilhas menores, chamadas parcelas, com 250 metros de extensão.

A proposta do estudo é captar dados que permitam fazer uma análise de qual foi o impacto do rompimento da barragem de Fundão na fauna terrestre.

“Dentro da calha do rio há um impacto visual da lama, que certamente afetou de alguma forma a biodiversidade aquática. O que estamos analisando é qual foi impacto na fauna terrestre, se houve aumento, diminuição ou se nada acontece. A partir disso vemos o quanto isso estaria associado a estar próximo ou distante do rio”, detalha.

Por isso, as trilhas de coletas de dados se estendem em uma área que vai até 5 km de distância de cada uma das margens.

Nesses locais, são realizadas as coletas de amostras ou registros de animais. “Já chegamos à quantidade de 100 mil registros, o que é um número absurdo. Há estudos de monitoramento de longo prazo que contam com 10 mil registros. Esses números variam muito para cada espécie analisada. Nós temos formigas e outros insetos em que é possível catalogar 10 mil, 20 mil indivíduos. Já com relação a animais de grande porte, esse número é menor, por exemplo, jacarés e cágados são cerca de 30”, detalha Loretto.

Ao todo, contando equipe de campo e análise, 200 pessoas trabalham no levantamento. Eles fazem a coleta duas vezes no período de 12 meses. Uma durante a estiagem e outra no período de chuva. As duas primeiras já foram realizadas e os resultados estão no processo final de análise.

Esse monitoramento será feito ao longo de dez anos. Com os dados será possível apresentar ações de recuperação da fauna e flora da bacia, que já sofria com impactos de atividades de agropecuária e industrial, antes do desastre.

O monitoramento terrestre vai detectar os níveis de metais residuais em vertebrados e invertebrados, na flora, nas ilhas fluviais e no solo ao longo do rio Doce. (Foto: Gustavo Baxter/Nitro Imagens/Divulgação)

Fauna e flora aquática

O trabalho de monitoramento da biodiversidade aquática se divide em dois. O primeiro tem o foco voltado no rio e está sendo realizado pela Fundação Renova. Nesse caso, a metodologia utilizada foi fazer coletas de pontos que foram afetados pelo rompimento de Fundão com pontos que não tiveram impacto. Isso permite fazer a comparação entre as amostras para saber qual está sendo o impacto do desastre na área afetada.

Já o trabalho de monitoramento da fauna e flora marítima é realizado pela Rio Doce Mar, entidade que tem a coordenação central realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e que conta com pesquisadores da Universidade Feral do Rio Grande (FURG), Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Universidade Federal do Sul do Bahia (UFSB) . Eles fazem a análise de uma área que abrange praias de Guarapari até Porto Seguro, no sul da Bahia.

Serão coletadas nesse trabalho 43 mil amostras de água, sedimentos, algas, plâncton, peixes, corais, areia de praia e invertebrados. “O trabalho é monitorar o nível de contaminação. Ver como estão sendo absorvidos e acumulados os metais contaminantes é a resposta biológica desses organizamos que estamos avaliando”, explica Adalto Bianchini, professor da FURG e coordenador do projeto nos estudos de Ecotoxicologia.

Projeto em parceria com a Fundação Pró-Tamar monitora as tartarugas marinhas em 159 km de praias no Espírito Santo. (Foto: Nitro Imagens/Divulgação)

Além desse trabalho, também está sendo feito o monitoramento das tartarugas marinhas, em parceria com a Fundação Pró-Tamar, e de baleias e golfinhos. Até o momento não houve registro de alguma anormalidade nessas espécies provocada pelos rejeitos que chegaram à foz do rio Doce.

Legado

Todo esse monitoramento da biodiversidade aquática e terrestre servirá de base para diversos estudos futuros, uma vez que não havia um trabalho dessa abrangência e nível de detalhamento. Os dados estarão incluídos no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SIBBr) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e permitirá que qualquer pesquisador do Brasil faça essa consulta.

Fonte: O Tempo

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