O que pensa a direita que se tornou anti-Bolsonaro

Para usar uma metáfora bem ao estilo de Jair Bolsonaro, o namoro do Movimento Brasil Livre com o Presidente da República acabou antes de virar noivado. Logo no começo do governo, lideranças do MBL, como o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) e o estadual Arthur do Val (DEM-SP), conhecido como Mamãe Falei, perceberam que o presidente saiu do púlpito da Câmara, por onde esteve por quase três décadas, mas o púlpito da Câmara não saiu dele. Um dos primeiros sinais públicos do descontentamento do MBL ficou evidente no final de março, quando o governo não tinha nem completado seus 100 primeiros dias e pipocaram declarações de significado bem distinto do discurso liberal vendido durante a campanha. 

O estopim foi a mistura de um metal com uma fruta. Desde quando era deputado, Bolsonaro dizia que o nióbio, mineral que, com o ferro, cria uma superliga, mais resistente, poderia ser uma das salvações da economia brasileira. Essa teoria não é exatamente novidade na política. O folclórico ex-deputado Enéas Carneiro (1938-2007), candidato a presidente três vezes, também falava sobre o assunto. No discurso do candidato do PSL, o nióbio resumia a ideia de que o Brasil é um país com imensas riquezas, mas não vai para a frente porque não sabe explorá-las ou protegê-las da cobiça dos estrangeiros. Já eleito, Bolsonaro seguiu numa linha semelhante. Prometeu proteger o nióbio e impor barreiras à entrada de bananas importadas do Equador para beneficiar produtores brasileiros. As falas protecionistas foram demais para os liberais do MBL.  

Na quinta-feira 9, falando a ÉPOCA na sede do MBL, um galpão com estilo de centro acadêmico na Vila Mariana, bairro da Zona Sul de São Paulo, Renan Santos, um dos coordenadores e o principal formulador da linha de ação do MBL, subiu vários tons na crítica. “O governo Bolsonaro é o maior inimigo da direita republicana, que é o que a gente defende”, disse. Guitarrista amador e fã da banda Television, umas das precursoras da cena punk de Nova York nos anos 70, Santos acredita que o estilo alternativo deve fazer parte da estética da nova direita. Antes de ajudar a fundar o MBL, ele chegou a estudar Direito na Universidade de São Paulo (USP) e diz ter tido uma empresa metalúrgica. Não concluiu a faculdade e teve de fechar a empresa. 

Ao discorrer sobre o cenário político, abusou dos gestos e não deixou de lado os palavrões. Quando se empolgava com uma formulação ou com a recordação de algum fato marcante, batia com as mãos nas próprias pernas. Para ele, o problema do governo tem nome e sobrenome: Olavo de Carvalho. Na visão do MBL, o guru de Bolsonaro, que parece falar com anuência do presidente, “não acredita nas relações republicanas” e na política pelas vias institucionais. “Defender que a articulação política é crime vai contra o que a gente representa. O Bolsonaro é a morte de nossa ideia”, disse. 

Assim como o MBL, outros apoiadores de Bolsonaro já estão desembarcando. O economista Delfim Neto, o empresário Flávio Rocha, das lojas Riachuelo, e até mesmo o músico Lobão, estão fazendo coro.

Fonte: Época

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